1908

A Careta

BILHETE À CARETA

(NA PESSOA DO SEU DIRECTOR-PROPRIETARIO)

Meu caro Jorge Schmidt

Desvanecendo-me com essa delicada prova de consideração por meu nome V. exige a minha collaboração no numero de anniversario da “Careta”. Não me eximirei ao cumprimento desta ordem, mas, sem duvida devido a minha edade, que já não é dos rompantes, vacillo na escolha do assumpto para cumpri-la. E com a verdade afirmo não saber bem o que fazer. Se me entrego à seriedade d’um artigo “puxado à sustancia”, como se diz e assim de maneira dos mais sizudos acadêmicos do becco da Lapa, arrisco-me a tropeçar no ridículo e à vaia irreverente dos lettrados; se me inclino para o gênero jocoso ou satyrico, sei d’antemão que provocarei bocejos e enfado a quem se animar a lêr-me; e isso porque me falta sabença para fingir de doutrinário e geito innato para rir com o bom riso communicativo que immortalisou mestre Rabelais. Vacillando entre tão perigosos pontos, aos quaes o bom gosto me impede de comparar a Scylla e Caribdes, pendo, por conselho do claro bom senso, a esta carta, de forma despretenciosa e de expressões sinceras. Sempre esperei que a “Careta …

Que V. é como emprehendedor, o que V. vale como director de revista eu o sei por observação e experiência. Vio-o fundando a “Kósmos”, que foi um successo, e veiu demonstrar que as artes graphicas no Brazil podiam obter logar proeminente em concursos internacionaes como provam as medalhas douro de S. Luiz e de Milão, que condecoram o cabeçalho d’essa, até hoje, inexcedivel revista de arte e litteratura da capital brasileira; vio-o depois, animado por tão victorioso resultado, o travesso, leve, gentil “Fon-Fon!”, logo após o elegante “Diário”, único no seu gênero em todo o mundo e, por isso, não resistindo ao despropósito das despezas, e finalmente esta revista, que é, rí actualidade, um semanário de grande tiragem e estima publica. Certo que a “Careta” representa o talento, a “verve”, o fino “humour” do lápis expontâneo e fixador do J. Carlos, da prosa irônica ou saltitante e do verso satyrico ou brejeiro do Mário Behring, do Leal de Souza e do Brant, que são os dedicados factores dos successos d’esse estimulante e engraçado hebdomadario; mas à V. deve elle a sua habilidosa collocação no mercado e, particularmente, o seu exemplar feitio artístico que, em nosso tempo não tem quem o exceda.

E outra cousa não se podia esperar do Jorge Schmidt, provecto director de officina graphica e attento pesquizador de todos os processos novos da sua especialidade. Por tanto, meu caro Schmidt, eu que nunca tive a honra de publicar uma só linha na popular “Careta”, e que, neste pouco remunerador e satisfatório officio de escrever pilhérias e fazer litteratice engraçada para o publico sou mais que medio-comparsa de outro semanário alegre, aqui trago, sem inveja e unicamente movido por impulso de antigo affecto, as minhas saudações a todos os dessa redacção e com muito prazer e sinceridade aperto a mão do intelligente proprietário de tão espirituoso e conceituado hebdomadario.

O PARTO DA MONTANHA

S. EX. AGUARDANDO O GRANDE MOMENTO.

TELEGRAMMAS

(Serviço especial)

Lisboa — Junho — Hoje quando S. Ex. o Presidente do Conselho passava junto do monumento de Eça de Queiroz, foi chamado familiarmente pelo busto do grande escriptor. S. Ex. approximou-se arco-irisado de espanto. “Hoje é o anniversario da Careta. Vae passar este telegramma”.  A Verdade que offerece os marmóreos seios à investigação curiosa do estylista, estendeu um papel que S. Ex. abriu e leu: “Bravo, rapazes que estendeis o manto diaphano da phantasia sobre a nudez forte da Verdade! — Eça”. Buenos-Aires— Junho — às primeiras horas da manhã o Presidente Figueiroa Alcorta dirigindo-se em carro do Estado à residência do Ministro do Brasil pediu-lhe que transmittisse à Careta, por motivo do seu primeiro anniversario, os comprimentos officiaes do governo argentino. O dr. Victorino de La Plaza, ministro das Relações Exteriores, disse o presidente, deixava de comparecer à Legação Brasileira por continuar completamente idiota. Pouco depois do Presidente chegou Mme. La Prensa que disse ao sr. Gama recordar com gratidão as homenagens que a Careta prestou ao seu illustre esposo, o dr. Zeballos, por occasião do seu catastrophico fallecimento. El Sarmiento deitou imponente artigo que deixamos de resumir por ser muito hyperbolico.

Sant Anna do Livramento — Junho — Festeja-se com delírio o anniversario da Careta. Quando o representante da gloriosa revista chegou à Praça General Osorio, onde fôra armado um coreto do qual assistiu elle o desfilar do povo, adiantou-se o Coronel João Francisco, que disse, estendendo-lhe a mão: “Queira receber os meus gratos comprimentos pela grande data. Jamais esquecerei que devo ao lápis previlegiado de J. Carlos o melhor dos meus retratos”.

ARTIGO DE FUNDO

Com o passado número encerramos a nossa primeira série de caretas que formam um alentado álbum de 1872 páginas, fora algumas supplementares, todas consagradas à sadia tarefa de provocar o riso a Umanidade do Sr. Teixeira Mendes. Como disse um dia aquelle grande poeta de cujo nome não nos lembramos, chegados a um ponto capital da vida cada um deve olhar para dentro de si mesmo. Por mais que isso buscássemos fazer, confessamos com toda a ingenuidade que não o conseguimos; quizemos virar os olhos para dentro, mas elles começaram a doer que nem o diabo, de sorte que com grande mágoa não seguimos o conselho do sr. Cunha e Costa … ah! é isso! Cunha e Costa, é o nome do tal grande poeta a que acima nos referimos. Preferimos olhar para dentro da nossa collecção. E palavra de honra, palavrinha mesmo, que gostamos. Ora, nós somos todos rapazes de bom gosto e se gostamos mesmo, é porque a cousa é boa. E ahi fizemos uma descoberta que jamais occorreria ao Sr. A Cassiano do Nascimento. Por isso é que toda a gente gosta da Careta, hein ! Se ella é tão boa! Tão atordoadora foi a nossa impressão que duvidamos muito que maior podesse ser se o general Pinheiro Machado nos escolhesse para presidente da Republica no quatriennio de 1814-1818, quando fosse ao palácio do Cattete intimar ao futuro chefe d’Estado a não ter candidatos.

Temos notado que toda a gente cuja careta ornamenta a nossa capa, fica livre por isso mesmo do caiporismo. Olhem só o Sr. A Cassiano do Nascimento. Foi sahir num sabbado a sua figura, tão anafadinha, tão sympathicazinha, tão expressivazinha e logo na segunda-feira conseguir na Câmara aquelle estupendo triumpho.

Foi ou não influência da Careta? Nem há que discutir. Por isso o J. Carlos entendeu que devia maltratar os companheiros e pintou a série de caretas que os senhores hoje vêm. Desde já declaramos que não estão nada parecidas. Nós somos muito mais bonitos, isso é fora de dúvida; mas o lápis do J. Carlos acostumado a fazer perversidades, é aquella desgraça, por mais carinho que elle lhe ponha na ponta, a gente sae assim como saiu. Mas ahi fica feita a rectificação, para conhecimento dos nossos futuros Pelinos, isto é, quer dizer, biographos.

O nosso valente collega vespertino O Século tão brilhantemente redigido por Brício Filho teve a gentileza de reproduzir uma caricatura do nosso J. Carlos, publicada em nosso passado número e que constituiu um verdadeiro successo, retratando ao vivo a nossa situação politica. Ao nosso brilhante collega com as nossas saudações effusivos agradecimentos da Careta.

Careta 1908-21 e 35-50

J. Carlos diretor e ilustrador exclusivo da revista até 1921.

Careta catálogo

Careta

A Cara Alegre do Rio02 j. carlos

2011

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