2001

Instituto Cine Cultural

O traço que açoita

Pedro Corrêa do Lago

José Lins do Rego escreveu que J. Carlos está para a caricatura brasileira como Vila-Lobos para a música e Machado de Assis para a literatura.

Quase 50 anos após a sua morte é ainda este o julgamento da posteridade, que soube reconhecer no traço sem falha de José Carlos de Brito e Cunha a expressão mais acabada do desenho de humor nacional.

Como artista gráfico, J. Carlos é simplesmente prodigioso. Sua produção foi gigantesca , pois a regularidade de sua rotina de trabalho ao longo de 49 anos de carreira na imprensa garantia um fluxo ininterrupto de desenhos para abastecer as maiores revistas ilustradas do país. Se o número estimado dos desenhos que J. Carlos realizou é impressionante (mais de 100.000!), é sobretudo a qualidade constante que parece quase inacreditável, tendo em vista a rapidez com que os prazos editoriais obrigavam o artista a trabalhar. Não se conhece um único desenho ruim de J. Carlos, sobretudo a partir dos anos 20, quando seu estilo atinge a plena maturidade e um sentido inato parece invariavelmente guiar seu traço para a melhor solução gráfica ou efeito de bom gosto.

J. Carlos foi de fato um exímio observador da vida e dos tipos do Rio de Janeiro, alguns dos quais ajudou a criar, fixando-lhes a imagem, como a melindrosa dos anos 20, ou tornando-os recorrentes, como o português do armazém ou da padaria.