1948

UT Libraries 2008

Vol. 1

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… muita vez com a técnica do desenho, não lhe toma de empréstimo, quando necessário, alguns de seus processos? Seria, creio, interessante seguir na concepção duma paisagem a arte do escritor. Acharíamos motivos de aproximação com a arte do desenhista. A pintura, aplicada à literatura, exige, porém, apuros de técnica que não estão facilmente ao alcance do escritor, pelo que a caricatura, arte do detalhe e da deformação, lhe oferece campo mais vasto e seguro, aparecendo entre as manifestações artísticas como sendo mesmo a mais vizinha da obra literária. É a palavra de Bergson em Le rire : “O cômico do desenho é muitas vezes um cômico de empréstimo, de que a literatura fornece os principais fatores.” Desse modo, Refort traça um paralelo plástico no campo das letras e da caricatura, dando-nos centenas de exemplos colhidos em alguns dos livros mais característicos da literatura francesa, em especial do romantismo para cá. Victor Hugo, Théophile Gautier, Balzac, Alphonse Daudet, precedem Flaubert, Maupassant, Zola, para se seguirem a estes — Anatole France, Colette, Tristan Bernard, Marcel Proust, inclusive, todos eles autores de charges literárias do mais agudo sabor cômico. Mas é tempo …

Ao contrário, posso mesmo dizer que talvez mais do que pintores e escultores, foram sempre os caricaturistas brasileiros meus artistas prediletos, com o que  não pretendo, aliás, significar o menor desapreço a mestres como Rodolfo Bernardelli ou Eliseu Visconti, mas apenas porque não acho em nada inferior à do grande escultor de Faceira ou do admirável evocador de Gioventh, a arte, por exemplo, tão refinada, tão alta e tão harmoniosa, dum J. Carlos.

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No Brasil, nunca é demais louvar a magnanimidade do Imperador Pedro II, a maior vítima da caricatura que já houve por estas Américas, em consequência da campanha da abolição, não somente por parte de brasileiros, como pelos estrangeiros Angelo Agostini e Rafael Bordallo Pinheiro, principalmente Agostini, autor de charges tão impressivas que não há exagero em se lhe atribuir …

No entanto, se é verdade que contra Rafael acabou havendo uma forte reação, mais dos políticos, é certo, do que do governo, como no caso dos “trinta botões”, Agostini jamais teve quem o molestasse, em toda a sua longa e gloriosa campanha.

O mesmo aconteceu anos depois, com o governo Hermes e com o quatriênio Bernardes, apesar do estado de sítio e da Clevelândia, para onde não foi, entretanto, nenhum pinta-monos. No caso do marechal é ainda digno de relevo ter, quando Presidente da República, o mais alvejado que já houve pela sátira do lápis em nosso país, casado com uma jovem e brilhante caricaturista, Rian ou fosse Nair De Teffé, a mesma que, num baile do Catete, já esposa do Chefe da Nação, apareceu uma noite com um fabuloso vestido de soiríe, tendo à roda da saia, caricaturados pelo seu lápis, todos os ministros do marido. E não é justo esquecer também que, no Estado Novo, se a caricatura política foi abolida da imprensa, pode-se afirmar que não o devemos ao presidente Getúlio Vargas, sabido, como acentuei uma vez, que o então chefe do governo nunca deixava de ser o primeiro a rir das charges espirituosas que surgiam nas nossas revistas, visando-lhe a pessoa, como naquela página de J. Carlos, em que o vemos na campanha de 1937, espalhando cascas de banana à porta do Catete. Nisso estava ele, aliás, em muito boa companhia, para lembrar, como o faz o mesmo Alvarus, aquilo que nos conta Gilberto Freyre em sua Interpretação do Brasil : “Parece conto, mas é verdade que alguns políticos brasileiros e …

  • p. 21

ANÁLISE ESPECTRAL DE CARICATURA

… ficar atrasada — alta noite em certos casos, em outros já de madrugada, Julião depunha o livro, acendia mais um cigarro, abancava deante da vasta prancha imaculada. E geralmente, após alguns minutos ainda de indolência e rebeldia, aquela mão se galvanizava, se arremessava, se precipitava na

Havia em muitos casos um pedaço de imagem, uma parcela de qualquer, coisa, que, por si só bastava para dar a noção completa do assunto ou a sua perfeita explicação.

E quem o olhasse, debruçado sobre a prancha, o cigarro entre o indicador e o máximo da mão esquerda, o lápis vibrando sobre a bela página nascente — podia ter a certeza de ver um homem absolutamente feliz.

Compreende-se assim, facilmente, que ninguém mais do que o caricaturista precisa de liberdade, para a criação de suas obras, tantas vezes capazes de atravessar o tempo. Era assim que em pleno Estado Novo, falando à Revista da Semana, em agosto de 1944, J. Carlos afirmava categoricamente a decadência vertiginosa da caricatura, entre nós, por falta dum ambiente propício porque, “reproduzir, nos jornais, deformando-a, a cara de pessoas ilustres, famosas ou conhecidas por qualquer motivo, não tem nenhuma significação” — não sendo diferente a atitude de Alvarus ao ser ouvido na mesma ocasião: “Atualmente a caricatura política está reduzida a dois bonecos, um virado para o outro, debaixo dos quais se escreve uma legenda qualquer. A família da caricatura está seriamente doente: intoxicação totalitária.”

Em certos casos, o trabalho do caricaturista tem de ser mesmo tão heróico como o dos soldados de vanguarda.

Basta lembrar as dezenas de capas de Careta, com que J. Carlos implacavelmente atacava o monstro, exaltando sem cessar o solitário estoicismo da Inglaterra, as flagelantes composições de Augusto Rodrigues e de Guevara, então identificado conosco, na Folha Carioca, algumas delas com verdadeiro tom apocalítico, não sendo menor, no mesmo gênero a contribuição de Belmonte, na Folha da Noite, de S. Paulo.

  • p. 24

Cito apenas estas charges de J. Carlos, dentre milhares de outras tantas, do mesmo alcance irônico e sentimental: (Dois maldizentes comentando a suprema elegância de certa dama) — Sim, ela veste os mais …

  • p. 25

Isso que serviria para marcar de fato a graça especialmente parisiense de tantos outros humoristas do boulevard, teria de ser substituído no Brasil por um caleidoscópio: a silhueta serpenteante e ágil da melindrosa de J. Carlos; a estupenda …

1981

  • p. 58

… equipe quando por aqui passaram de volta da Argentina, a fim de colher material para suas composições artísticas. A esse almoço, ao qual comparecemos, lá estiveram J. Carlos, acompanhado de sua linda filha Lourdes a servir-lhe de intérprete, cremos que o Nássara, se não nos falha a memória, e, certamente, Augustinho Rodrigues, que, não falando uma palavra de inglês, se comunicava numa loquacidade mímica com o seu vizinho americano, que lhe respondia com gestos mais ou menos idênticos; ambos — durante o almoço, que se prolongou bastante — riam às gargalhadas! Na ocasião, em grandes painéis eram apresentadas as produções dos caricaturistas então em plena atividade, para a curiosidade da equipe disneana e bem lembramos do espanto, da admiração de todos eles diante do painel de J. Carlos, apontando especialmente para o papagaio desenhado por esse artista e que depois viria a aparecer no filme famoso, rigorosamente idêntico ao traçado por Jota. Sem o fito agressivo do desmentido, que nos perdoe o saudoso Luiz se tentamos recompor um fato real e histórico no reino da nossa caricatura.

… criados por Luiz Sá ocorreu quando J. Carlos, num anúncio que fez para o Almanaque do Tico-Tico de 1934, incluiu os personagens criados pelo artista cearense, e mais quando eles apareceram no novo logotipo daquela publicação ao lado das composições de Luiz Peixoto e outros artistas que colaboraram naquele semanário que circulou continuamente por meio século. Dentre os livros que Luiz Sá ilustrou, ressalte-se No mundo dos bichos, de Carlos Manhães, o célebre Dr. Sabetudo, de saudosa memória, e a História de Pai João, do escritor e acadêmico Osvaldo Orico. Um dos pontos altos de sua carreira, e que lhe daria imensa e merecida popularidade, foi alcançado com a apresentação, especialmente no Jornal da Tela, verdadeiro hors d’oeuvre caricatural a indicar graficamente os assuntos ocorridos na…

… às voltas com o seu lúbrico bossu, Mayeux; Henry Monnier, braço dado com o seu pudico Monsieur Prud’Homme; o bávaro Henrique Fleuiss, com o Dr. Semana, que traz pela mão o moleque; Angelo Agostini, com Nhô Quim e Zé Caipora, Raul Pederneiras, no meio de seu grupo de Figuras Cariocas; Yantok, com os incríveis inventores, Dr. Papanatas e Kaximbow; Fritz, junto de seu Pequeno Jornaleiro; J. Carlos, entre Carrapicho, a negrinha Lamparina e, meio encabulado, entre suas Melindrosas, petulantemente …

… o mundo, tendo seu lápis atravessado nossas fronteiras para aparecer na imprensa francesa, nas páginas das então famosas revistas Le Rire e Fantasie. Também como Luiz Sá, para ali convergiram nos seus dias finais outros dois caricaturistas: Storni (Alfredo), o criador, n’0 Tico-Tico, de Zé Macaco e Faustina, o casal pertencente à mesma linhagem de Bringing up Father, apelidados entre …

… criadas pelo lápis do irlandês MacManus, há mais de 20 anos desaparecido, mas cuja historieta é até hoje realizada por uma equipe de desenhistas.

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