12/1/1991

Manchete

UT Libraries 2008

  • p. 83

JOSUÉ MONTELLO

O CRONISTA MAIOR

Não sei se Rubem Braga chegou a ter alguma de suas crônicas ilustrada por J. Carlos. Se teve, nada mais adequado. Aquele fino traço do grande desenhista, associando à caricatura leve e brejeira a emotividade lírica, correspondia com exatidão ao texto do grande cronista. J. Carlos era, com exatidão, o Rubem Braga do desenho, assim como Rubem Braga, também com exatidão, seria o J. Carlos da crônica, em condições de dar ao texto breve a luz, a cor, o movimento, a graça, emocionando, fazendo sorrir, sem lhe faltar sequer a concordância de uma singularidade específica que os tornava inconfundíveis. Querem a prova? Vejam , na coleção do Para todos, de O Malho e de A Careta, as ilustrações de J. Carlos.

Leiam, em seguida, as crônicas de Rubem Braga, na primeira fase de MANCHETE. Por esse tempo, tínhamos aqui, entre outros companheiros, o Henrique Pongetti, o Fernando Sabino, o Vinícius de Moraes, o R. Magalhães Júnior, o Joel Silveira, Antônio Maria, Sérgio Porto, Lúcio Rangel, Paulo Mendes Campos, todos eles com a arte de reter por um momento a atenção do leitor com o comentário, a impressão, a anedota, o perfil de breves traços. Cada um deles com seu modo de ser e de escrever. No elenco de grandes cronistas, o Braga era sempre o Braga, quer a compor a página evocativa, quer a reter o tempo que vai fluindo e é pretexto para a prosa irretocável. Quem tem a experiência profissional da revista e do jornal, sabe que há dois estilos de crônica: um, ajustado à revista; outro, ajustado ao jornal. Este, mais próximo do editorial; aquele, mais próximo do flagrante essencialmente poético em que Rubem era o mestre incomparável. Um velho crítico francês, Sainte-Beuve, estudando uma das obras-primas da cultura literária universal, a Introdução à vida devota, reconheceu que bastava que seu autor, São Francisco de Sales, terminasse de escrevê-la, para que seu período estivesse perfeito. Nada mais que o ato de levantar a pena da folha de papel. Não precisava retocá-lo. O que tinha de dizer estava dito. E no tom que individualizava o texto, ajustado à assinatura do escritor. Assim também o nosso Rubem Braga. Convém assinalar ainda outro traço distintivo do grande cronista: sua crônica, do começo ao fim da vida de seu autor, não precisou descrever uma linha evolutiva. Surgiu como devia ser. Com um tom próprio. Com um modo de ser que imediatamente a individualizava. Plenamente amadurecida. A crônica, por sua própria natureza, é um gênero que se desfaz com o passar do tempo. Mudam os temas, mudam os assuntos, a própria vida se modifica. É natural que a crônica, espelhando os momentos fugidos, também passe, levando consigo os velhos cronistas. No caso de Rubem Braga, não será assim. Ele soube dar perenidade ao texto que deveria ser efêmero, guardando a beleza antes que se desfizesse. Por vezes, se a crônica volvia aos velhos temas, sempre encontrava recursos novos, sem deixar de ajustar-se ao molde perfeito, que vinha de suas origens. Daí a unidade expressional da obra de Rubem Braga. Sobretudo mestre da crônica da revista, mais semanal que diária. Sobretudo mestre da crônica da revista, mais semanal que diária. Como a exigir a paz do fim de semana para ser lida e relida. A ponto de fazer da falta de assunto o seu assunto — sem que Braga experimentasse jamais aquela terrível sensação vivida por Eça de Queiroz quando dizia que, para escrever a crônica, ficava com a pena a apontar para o papel, sentindo que estava a espremer um limão seco. Rubem Braga jamais viveria esse momento. Sempre fluente. E lírico. Mesmo diante do drama ou da tragédia. Com o poder de dar expressão à banalidade da vida corrente, insuflando-lhe admiravelmente o rigor e a duração da obra de arte.  A crônica …

Outros cronistas passaram, Rubem Braga não passará. Se não estou em erro, sobem a dezessete os livros que publicou. Não nascera para o conto ou para o romance. Menos ainda para o ensaio. Toda a sua inspiração o acompanhava. Bastava-lhe debruçar-se de uma sacada de janela, olhando o mar, a rua, a praia, a árvore, a alameda, um casal de namorados, um banco de jardim, um menino com uma peteca, a meninazinha que aprende a andar de bicicleta no dia de Natal, para que o transe poético da crônica o dominasse. Ainda bem que nos ficou o consolo de que, em cada texto de Rubem Braga, reencontramos o próprio Rubem Braga. Ninguém mais presente que ele, em tudo quanto lhe fluiu da pena. Basta-nos, para isso, reabrir um de seus volumes. Ao acaso. Ei-lo, diante de nós, vivo, singular, único – tal como Deus o fez para aplauso e afeto de seus contemporâneos. Daqueles que tiveram o privilégio de vê-lo e ouvi-lo. Ainda que só uma vez. O suficiente para reconhecer que ele soube dar perdurabilidade ao nosso tempo. Diluindo na poesia de seu lirismo todas as nossas amarguras.

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