1998

UT Libraries 2008

Veja

Márcia Vieira

  • p. 202

A inspiração vinha do olhar atento no trajeto do bonde que saía da Rua Jardim Botânico até a Frei Caneca com uma baldeação na Avenida Central. Pelos olhos de José Carlos Brito e Cunha passavam o anotador do jogo do bicho, o almofadinha, a moça graciosa, o funcionário público, a dona de casa, o malandro. Na prancheta, J. Carlos, dono de um traço elegante e de um humor irônico, transformava essa galeria de tipos em …

… mas sempre com um olhar crítico

  • p. 204

… copiar uma a uma as ilustrações.

“Foi um período felicíssimo.”

Depois rumou para São Paulo, junto com a X-7560, e copiou na biblioteca de José Mindlin os desenhos publicados em O Tico-Tico, uma revista infantil. Por fim, dividiu tudo por tema e selecionou as 500 ilustrações do livro. “O Loredano fez um trabalho exaustivo. Só um maluco como ele para fazer isso”, diz, rindo, o editor Sebastião Lacerda. Loredano, que mantém em caixas no seu escritório outras 30.000 ilustrações, é um sujeito persistente. Cismou que Zuenir Ventura tinha de escrever o texto. “Ele vivia atrás de mim, eu dizia que não podia, e ele persistia”, conta Zuenir, que um dia perdeu a paciência. “Mas por que eu é que tenho de fazer, Cássio? Pede para outro.” A resposta foi direta. “Quem escreveu Cidade Partida tem a obrigação de escrever sobre o Rio de J. Carlos.” Zuenir não entendeu, mas achou melhor concordar. “Descobri que ele tinha razão. Talvez J. Carlos tenha …

O inusitado na biografia de J. Carlos é que ele era um homem sério. “Ele raramente aparece rindo nas fotos”, diz Loredano. Casado, pai de cinco filhos, J. Carlos fazia o tipo caseiro. Ia todo dia de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Sua grande diversão era ir à praia. E lá encontrou mais uma inspiração para sua galeria de tipos: a mulher magra, com corpo bem definido. Na década de 20. a carioca ainda era muito recatada nos seus trajes de praia. Mas nos desenhos de J. Carlos ela já aparece de shortinho curto e maiô colado ao corpo. “Talvez esse voyeurismo na praia tenha sido o máximo de transgressão que ele tenha se permitido”, arrisca Zuenir. Não que J. Carlos fosse desprovido de humor no seu cotidiano. Instigado por amigos de redação de O Malho, aceitou fazer um teste: quantos desenhos seria capaz de produzir em cinco horas? J. Carlos fez 100 figuras, distribuídas em cinquenta grupos, sem repetir um só tipo. No final da folha de papel ainda escreveu: “Feitos apenas com a …

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